Espaço Photo

Este é o Blog da revista Espaço Photo. Aqui você encontra informações sobre FOTOGRAFIA. Atualização diária. Criação/edição: Luiz Ferreira. E-mail para contato: espacophoto@terra.com.br

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Terra Blog

Categoria: ENTREVISTAS

01.04.07

O Fotógrafo da Revolução

categorias: ENTREVISTAS

Vejam que interessante entrevista feita por Antonio Prada (que é editor de mídia do site Terra) com Diana Diaz Lopez, filha do fotógrafo cubano, Alberto Korda, e publicada no site do Terra:

 A história das grandes fotos da revolução

Diana surge na janela, último andar de um pequeno edifício no bairro de Vedado, Havana. Acena, diz olá e joga uma pequena bolsinha com a chave que abre a porta principal do prédio. Cena comum numa cidade onde as campainhas geralmente não funcionam. Três patamares de escadas depois, a porta já está aberta. Diana recebe com um sorriso e um cumprimento: "Bienvenidos". Diana é uma Korda, marca que em Cuba e mundo afora significa quase tanto quanto Castro e Guevara.

 Diana, filha de Alberto Korda

 

Muitos não conhecem o nome, mas certamente irão reconhecê-lo por trás da mítica foto: o Che com boina, há décadas estampada em milhares de cartazes, camisetas, bonés e livros ao redor do mundo; a maioria sem pagamento de direitos autorais.

 Foto de Che Guevara feita por Alberto Korda

 

Filha de Alberto Korda, um dos principais fotógrafos cubanos, que retratou acima de tudo, com acesso privilegiado, o processo revolucionário e seus personagens, no palco ou fora dele, Diana Diaz Lopez, ex-bailarina do Balé Nacional de Cuba, carrega a tarefa de administrar o importante e valioso espólio do pai. Isso, depois de brigas judiciais, inclusive com membros da família.

Na pequena sala ensolarada e decorada com obras de arte, imagens de família e livros de fotografia, ao redor de uma mesa e uma garrafa de Ron Varadero, estão reunidos alguns amigos, entre os quais Jaime Sarusky (jornalista, escritor - Prêmio Nacional de Literatura em 2004 - e amigo de infância de Alberto Korda). Rei, marido de Diana, também presente.

Com a chegada do grupo - os organizadores da exposição de fotos brasileiras em Havana e o fotógrafo pernambucano Beto Figuerôa -, a garrafa de rum se esvazia rapidamente, e o Brasil se torna o tema central.

- Brasil e Cuba são muito íntimos. Somos muito parecidos -, inicia Rei.

Fala-se das ações do PCC (não do Partido Comunista Cubano, e sim da organização criminosa brasileira), do buraco do metrô em São Paulo, de música, novela, literatura e cinema brasileiros. Jaime, cabelos brancos penteados para trás, óculos pesados, mãos e sorriso grandes, revela que está pensando em escrever um livro sobre os dias em que Glauber Rocha se refugiou em Cuba - entre 1971 e 1972 - um dos períodos menos conhecidos na vida do cineasta. Enuncia:

- Deve ser uma novela. Talvez costure a história contrapondo os dois amores de Glauber no país - diz a ouvidos atentos.

- Sim, Glauber teve um amor oficial e outro secreto - revela, entre goles de rum com muito gelo.

Segue-se o complemento que deixa, pairando no ar, detalhes da vida amorosa de Glauber Rocha:

- O amor público era uma dama, ela vive perto daqui.

A base do livro será uma entrevista de quase seis horas, realizada por Jaime com Glauber em 1971, e ainda inédita:

- Glauber vivia um momento muito peculiar. À esquerda da esquerda. Mas não sei se vou publicar o livro. Às vezes penso que deveria ter feito isso há 20 anos. Não sei se faz sentido essa discussão agora mesmo no Brasil. Faz? - indaga Jaime, em busca de aprovação.

A política entra naturalmente no cardápio, não sem antes algumas hesitações. Indagados pelos brasileiros sobre o que pensam do governo Lula, os anfitriões cubanos primeiro mudam de assunto. Depois, politicamente, tentam devolver a pergunta:

- Estamos fora da realidade do Brasil. Ninguém melhor do que vocês para opinar sobre isso.

Depois de nova tentativa, Jaime assume a palavra:

- Preciso pensar. Não é uma resposta fácil - diz, sorrindo.

E emenda: - O Brasil é um país difícil de governar. Tem um grande território, uma forte burguesia e não deve ser fácil conciliar todos os interesses - suaviza.


(Continua no próximo post)

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  • Postado em 17:19:43

O Fotógrafo da Revolução_continuação

categorias: ENTREVISTAS

(Continuação do post acima)

 

O novelista Jaime dá mais uma salto na conversa. Elogia a diplomacia brasileira, com uma leve ironia e palavras precisamente lapidadas, ao falar da relação do Brasil com a Venezuela de Chávez. É uma relação renascentista", pontua, com uma pausa. "Renascentista no sentido maquiavélico", completa, sorriso entre os dentes. "E o Brasil leva vantagem. Vocês sempre foram ótimos na diplomacia".
Mais perguntas. Dos cubanos. Lula tem um sucessor natural nas próximas eleições? Como anda o PT depois dos casos de corrupção?
Outra rodada de rum Varadero, algumas xícaras de café e Cuba é agora o assunto.
Jaime levanta a questão do embargo, que em suas palavras, significa "guerra econômica e política". Quase em uníssono, os cubanos criticam duramente Bush e os republicanos. Recordam períodos menos tensos, quando os EUA estavam nas mãos de democratas, como Jimmy Carter e Bill Clinton.
- O embargo é tão violento... quando descobrem que alguma empresa negocia com produtos que contêm o níquel cubano cancelam o pedido... Cuba é maldita - avança Jaime.
Com um sarcasmo dirigido ao olhar norte-americano, conclui:
- Cuba é feia. Somos feios. Ter um passaporte cubano virou sinônimo de terrorismo.
A conversa acalorada e regada a rum é interrompida vez por outra por amigos que entram e saem do apartamento, e pelos incessantes telefonemas. Uma das chamadas é do "especialista" em consertos gerais; ele liga para avisar ter encontrado a peça que irá reanimar o refrigerador.
Jaime aproveita a pausa. Levanta-se, ajeita os óculos, recolhe uma pequena sacola com livros que repousava no chão, e se despede com um sorriso largo.
Diana, que durante o entrecho "cultural" da conversa entretia-se com assuntos da casa, deixa a sala novamente, por um momento, e ao retornar traz em mãos a grande surpresa da tarde: a prova do novo livro sobre Alberto Korda, que será lançado no segundo semestre em Paris.
Vocês serão os primeiros a vê-lo - anuncia.
Sozinha entre os brasileiros - o marido também saiu para encontrar amigos -, Diana senta-se no sofá e abre o grosso envelope. Primeiro, exibe a capa de "Korda - Lentes Revolucionárias". Depois, folheia página a página, entremeando-as com histórias que o livro não irá revelar.
O livro é a mais completa retrospectiva de Korda, falecido em 2001. Reúne mais de 400 fotos, muitas delas inéditas, que pontuam a carreira e vida do fotógrafo que percorreu o mundo, muitas vezes ao lado do líder cubano, mas nunca deixou de viver e retratar a ilha de Fidel. São cinco os capítulos: O Estúdio, Os Líderes, O Povo, As Mulheres e O Mar.
- Meu pai nunca foi um fotógrafo de panorâmicas. Seu foco sempre foi a pessoa - define Diana, que assina o prefácio de uma forma inusual:
Quando pediram para que eu o escrevesse, me assustei. Não tenho esse dom. Depois de relutar muito, acabei escrevendo uma carta ao meu pai. Acho que ficou bom - conta, sem graça, enquanto vira rapidamente a folha tentando esconder o texto íntimo.
As páginas vão passando e trazem à tona rostos anônimos e famosos, imagens de bastidores nunca antes reveladas: mulheres delgadas - uma paixão sem limites de Korda -, momentos íntimos dos líderes Fidel e Che e instantâneos da tórrida história da Cuba contemporânea.
Diana, tímida por natureza, transborda emoção ao revelar a primeira foto tirada pelo pai, com uma máquina emprestada do avô. É, não à toa, uma mulher: Iolanda, sua primeira namorada:
- Meu pai teve muitas mulheres e elas sempre foram muito importantes na vida dele. Ele era o pior dos cubanos nesse sentido - diz, sorrindo.
Curiosamente, a última foto de Korda retratando mulheres, que não estará no livro, foi tirada no Brasil em 2001. São duas modelos, e tem como pano de fundo o interior da Estação da Luz, em São Paulo.
O livro traz ainda a obsessão de Korda em achar a imagem perfeita através de cortes e edição. "Dificilmente ele ampliava o frame inteiro", conta Diana.
Foi assim com a célebre foto de Che com boina.
Foi assim com El Quijote de la Farola (59), na qual um campesino surge em cima de um poste no meio da multidão no auge da revolução.
As fotos do livro escondem ainda histórias nunca reveladas. Em uma série delas, Fidel e Che aparecem jogando golfe. Nesse dia, conta Diana, Che ficou irritado com Korda:
- O que acontece com você, disparando essa máquina sem parar? Você parece um fotógrafo ianque, tirando tantas fotos e desperdiçando tantos rolos de filme - esbravejou Che.
Segundo Diana, o pai não gostou da provocação, porque fazia então o trabalho oficial e porque, ainda por cima, os filmes haviam sido comprados por ele.
Uma hora e meia e muitas histórias depois, para tristeza dos presentes, a última folha é virada. O grupo de brasileiros, respiração em suspenso, gastaria mais uma noite nesta pequena sala se fosse possível.
A garrafa de rum deixa o centro da sala. Diana guarda a prova do livro no envelope e enquanto se despede, mostra a última foto do pai, tirada em Paris.
Cuidadosamente postada no centro da estante. Clicada quatro horas antes da sua morte. Nem no ocaso da vida a fotografia o abandonou.

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  • Postado em 17:10:53